Embarcar? Melhor não. Mas sim. Mas se ele não vai chegar?
– Foi quando parámos no Sumbe. Para os rapazes tirarem as bagagens e isso, para ele pagar, dei nele o dinheiro para a mão, mas ele não voltou a aparecer.
– Vai gastar tudo, está bem de ver. Depende de quanto tenha. Até já se enfiou de certeza aí pelo mercado com duas ou três moças. O dinheiro até pode chegar.
– São dez bi!
O carro ria do velho, com o velho numa situação dramática e cómica.
– Vou chegar ao Lobito sem dinheiro para pagar…
Esse não era só problema de velho. Era de condutor não menos.
– Se não tem dinheiro, não viaja. É melhor descer.
– Não, não, eu vou mesmo!
O motorista arrancou.
– Pára, pai, pára! Vou lhe procurar. Volta mesmo aí só atrás que eu lhe procuro no mercado.
– Ora só! Tem passageiros, kota. Com’é? Não vou voltar atrás. Desapeia agora ou sai nunca, decide já.
Tínhamos andado umas centenas de metros e parámos na bomba de gasolina. A indecisão do velho não aguentou a oportunidade.
– Deixa eu sair! Eu saio.
Estava já do lado de fora uma mulher opulenta que se confundia com os sacos.
– Tem lugar?…
A carrinha de nove lugares tinha 14 pessoas dentro. Ninguém queria trocar um velho magrinho por uma mulher espaçosa.
– Tem lugar, sim! Estou vendo aí! Me deixa entrar, preciso ir em Benguela mesmo.
– Vai pagar dois lugares, dama!
brincou o rapaz à minha frente. A dama entrou. Confusão. Para mexer o dedo mindinho de qualquer de nós era preciso desmontar e refazer o puzzle da carga toda.
– Faz força aí, levanta o saco! Mexe esse cabaz! Tira o pé agora que vai esmagar! Ponha a minha sacola lá atrás, favor!
Sacolas nos joelhos, mochilas entre as pernas, sacos de farinha por baixo dos bancos, alguidares e tachos. No fim de tudo acamado, não sobrava espaço para o ajudante do motorista, o rapaz que abre a porta lateral de correr, que chama os passageiros no mercado
– LobitolobitlobitlobitlobitLO-BI-TÔ!!!
e que cobra os bilhetes no fim da viagem. Tinha sotaque do Zaire e um olhar incrível. Não quis ser fotografado (“Ainda se a foto saísse aqui para eu ficar, ainda”). Sentou-se à minha frente, num banquinho branco de cozinha, em madeira, encavalitado, com uma perna entalada entre a porta e a adolescente de calções e a outra perna encaixada nas pernas dela. Dois tímidos, cinco horas num carro onde não havia onde pôr as mãos.
– O casalinho…
Na Canjala ninguém saiu. Pela janela, entraram galinhas vivas de penas cagadas, um cacho de bananas e um miúdo que não víamos levantou, à altura dos vidros, um presunto de espécie indefinida que acabara de ser cortado porque ainda escorria sangue. Tétrico, brilhando no fusco da tarde. A gordinha fez a pior das compras: um grande naco de carne de pacaça seca que transformou a carrinha numa câmara de tortura.
– Nada, dama, ponha isso aí no chão.
A estrada do Lobito é calamitosa. Das piores de Angola (rivalizando talvez com o troço de Caxito a Quibaxe).
– Esta estrada, chiiii! Está que nem sei!
– É sacrifício!
– É castigo!
– Deus é Pai!
– Até nem sei se até quando vão castigar o povo! Já foi tão castigado!
– Angola não vale a pena, pá! Com o dinheiro que Angola tem, já podiam arranjar as estradas.
– Esse Governo! O que não é preciso é o que eles fazem. O que não fazem é o que é preciso.
– Será que o Governo anda de carro? Não deve.
– Não anda, quê!
– Isso era agarrar no maudiê lá em Luanda e colocar ele bem aqui num camião, num turismo não, num camião só, com motorista, e pô-lo na estrada, para um lado e para o outro! Aí ele via como estão as estradas, o maudiê!
A carrinha fez mais uma travagem brusca que terminou num buraco de doer a espinha. A cada passo, parecia que íamos despistar-nos e todos os passageiros iam com as mãos no tecto para bater mais devagar com a cabeça, nos saltos.
– Eh lá, aí! O motorista corre muito. Por que está a correr tanto?
– Ele não está a correr muito. A correr muito eu já vi lá em Luanda. Nós estamos a ver aqui atrás e parece que ele não vê a estrada. Mas ele vê. Só que ele é assim. Ele escolhe o buraco.
– No 89, quando foi das festas da Gabela, fomos todos do Sumbe lá. Logo que passou a semana e já estava a estrada fechada. O governador voltou de helicóptero. Nós tivemos que esperar.
Da estrada passara-se à guerra.
– Nessa zona aqui era mentira, puxa! Aqui para passar era…
O ajudante completa a ideia da gordinha fazendo o gesto do medo com os dedos em medusa.
– Queimavam os carros, havia aí muitos mas agora já tiraram para a sucata.
– A táctica era, quando queimavam carro de manhã, aproveitar para passar logo essa tarde. De manhã à tarde eles já estavam longe. Porque era nesse dia. Dois dias depois, quem passasse no mesmo sítio já encontrava para queimar outra vez.
No lado sul da ponte da Canjala pintaram: ‘É muito proibido passar a ponte com a cara muito estranha.’”

 

Trecho de Baía dos “Tigres” , de Pedro Rosa Mendes.

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