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Os cegos: vêem algo?
— Uma cara de mulher, lisa à perspectiva das mãos.
— O cheiro molhado da chuva que se aprendeu de ouvido.
— Lembro muito um carro azul, não era meu, uma bicicleta que era, uma casa.
— O caminho para casa.
— Tinha um rádio de plástico e um pente vermelho.
— O mato calmo e de repente o fogo a saltar-me dos pés. O incêndio da
bomba correndo em mim, sim.
— Estou mesmo numa vida escura. Desculpe, mas nada.
— A paz é a nossa recompensa.
O perdão, o prêmio do líder que os mandou combater.
— Deixei de o ver quando perdi os olhos. Agora acompanho-lhe a voz.
Não consigo fazer uma frase da cara dele, mas uma palavra sim: forte,
alto. Não é?

Pedro Rosa Mendes em “Baía dos Tigres”

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