Imagem

Por Hélio Rola

 

somos bons homens. nao digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessaria, uma certa resistencia para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingenua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores. um povo assim, esta a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequivoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atencao. nao tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi. nao se preocupe, continuou, a conversa e mais para o distrair e, se ficar distraido sem reaccao, tambem nao lho levo a mal. e o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos. e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigénio e usarmos os pulmões. não nos hão-de convencer que volte a censura, qualquer tipo de censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus. qualquer iniquidade do nosso peculiar espírito há-de ser corrigida pela europa, para sempre. isto é que é uma conquista. e é como respirar, existir oxigénio e usarmos os pulmões, não se mete requerimento, faz-se e fica feito e não passa pela cabeça de ninguém que seja de outro modo. eu estava impaciente. abanava a cabeça como se concordasse, que era o meu modo de atalhar pela conversa com maior rapidez e sem enlouquecer. a laura não recebia alta e os médicos iam e vinham sem me atenderem por um minuto que fosse. o homem voltava a usar a caneta nos formulários intermináveis que preenchia, e repetia, se não dermos nas vistas, podemos passar uma vida inteira com os piores instintos, e ninguém o saberá. com a liberdade, só os cretinos mais incautos passaram a ser má gente. tudo o resto preza-se e cabe na sociedade de queixo erguido. e isso leva-nos a quê, perguntei eu. a quê, retorquiu, exultante pelo meu aparente interesse. sim, respondi algo provocador, o que quer dizer com isso, na verdade, na prática, o que significa uma afirmação toda ensimesmada dessas. ele voltou a pousar a caneta, pôs-se de pé com ar de quem faria um rodeio interminável mas, depois da hesitação, foi directo ao assunto. respondeu, num tempo em que todos somos bons homens a culpa tem de atingir os inocentes. pensei nos inocentes. não sou um homem piedoso.

 

do livro “Máquina de Fazer Espanhóis”, de Valter Hugo Mãe

Anúncios

Bemdito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dôr,
Estremecendo, acórda…

A minha dôr é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e chóro amargamente;
Mas a dôr, indiferente,
Continúa…

Então,
Febríl, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
– E a minha dôr adormece,
E o leão é socegado.

Quanto mais bêbo mais dórme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

– Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!

António Botto, in ‘Canções’

Embarcar? Melhor não. Mas sim. Mas se ele não vai chegar?
– Foi quando parámos no Sumbe. Para os rapazes tirarem as bagagens e isso, para ele pagar, dei nele o dinheiro para a mão, mas ele não voltou a aparecer.
– Vai gastar tudo, está bem de ver. Depende de quanto tenha. Até já se enfiou de certeza aí pelo mercado com duas ou três moças. O dinheiro até pode chegar.
– São dez bi!
O carro ria do velho, com o velho numa situação dramática e cómica.
– Vou chegar ao Lobito sem dinheiro para pagar…
Esse não era só problema de velho. Era de condutor não menos.
– Se não tem dinheiro, não viaja. É melhor descer.
– Não, não, eu vou mesmo!
O motorista arrancou.
– Pára, pai, pára! Vou lhe procurar. Volta mesmo aí só atrás que eu lhe procuro no mercado.
– Ora só! Tem passageiros, kota. Com’é? Não vou voltar atrás. Desapeia agora ou sai nunca, decide já.
Tínhamos andado umas centenas de metros e parámos na bomba de gasolina. A indecisão do velho não aguentou a oportunidade.
– Deixa eu sair! Eu saio.
Estava já do lado de fora uma mulher opulenta que se confundia com os sacos.
– Tem lugar?…
A carrinha de nove lugares tinha 14 pessoas dentro. Ninguém queria trocar um velho magrinho por uma mulher espaçosa.
– Tem lugar, sim! Estou vendo aí! Me deixa entrar, preciso ir em Benguela mesmo.
– Vai pagar dois lugares, dama!
brincou o rapaz à minha frente. A dama entrou. Confusão. Para mexer o dedo mindinho de qualquer de nós era preciso desmontar e refazer o puzzle da carga toda.
– Faz força aí, levanta o saco! Mexe esse cabaz! Tira o pé agora que vai esmagar! Ponha a minha sacola lá atrás, favor!
Sacolas nos joelhos, mochilas entre as pernas, sacos de farinha por baixo dos bancos, alguidares e tachos. No fim de tudo acamado, não sobrava espaço para o ajudante do motorista, o rapaz que abre a porta lateral de correr, que chama os passageiros no mercado
– LobitolobitlobitlobitlobitLO-BI-TÔ!!!
e que cobra os bilhetes no fim da viagem. Tinha sotaque do Zaire e um olhar incrível. Não quis ser fotografado (“Ainda se a foto saísse aqui para eu ficar, ainda”). Sentou-se à minha frente, num banquinho branco de cozinha, em madeira, encavalitado, com uma perna entalada entre a porta e a adolescente de calções e a outra perna encaixada nas pernas dela. Dois tímidos, cinco horas num carro onde não havia onde pôr as mãos.
– O casalinho…
Na Canjala ninguém saiu. Pela janela, entraram galinhas vivas de penas cagadas, um cacho de bananas e um miúdo que não víamos levantou, à altura dos vidros, um presunto de espécie indefinida que acabara de ser cortado porque ainda escorria sangue. Tétrico, brilhando no fusco da tarde. A gordinha fez a pior das compras: um grande naco de carne de pacaça seca que transformou a carrinha numa câmara de tortura.
– Nada, dama, ponha isso aí no chão.
A estrada do Lobito é calamitosa. Das piores de Angola (rivalizando talvez com o troço de Caxito a Quibaxe).
– Esta estrada, chiiii! Está que nem sei!
– É sacrifício!
– É castigo!
– Deus é Pai!
– Até nem sei se até quando vão castigar o povo! Já foi tão castigado!
– Angola não vale a pena, pá! Com o dinheiro que Angola tem, já podiam arranjar as estradas.
– Esse Governo! O que não é preciso é o que eles fazem. O que não fazem é o que é preciso.
– Será que o Governo anda de carro? Não deve.
– Não anda, quê!
– Isso era agarrar no maudiê lá em Luanda e colocar ele bem aqui num camião, num turismo não, num camião só, com motorista, e pô-lo na estrada, para um lado e para o outro! Aí ele via como estão as estradas, o maudiê!
A carrinha fez mais uma travagem brusca que terminou num buraco de doer a espinha. A cada passo, parecia que íamos despistar-nos e todos os passageiros iam com as mãos no tecto para bater mais devagar com a cabeça, nos saltos.
– Eh lá, aí! O motorista corre muito. Por que está a correr tanto?
– Ele não está a correr muito. A correr muito eu já vi lá em Luanda. Nós estamos a ver aqui atrás e parece que ele não vê a estrada. Mas ele vê. Só que ele é assim. Ele escolhe o buraco.
– No 89, quando foi das festas da Gabela, fomos todos do Sumbe lá. Logo que passou a semana e já estava a estrada fechada. O governador voltou de helicóptero. Nós tivemos que esperar.
Da estrada passara-se à guerra.
– Nessa zona aqui era mentira, puxa! Aqui para passar era…
O ajudante completa a ideia da gordinha fazendo o gesto do medo com os dedos em medusa.
– Queimavam os carros, havia aí muitos mas agora já tiraram para a sucata.
– A táctica era, quando queimavam carro de manhã, aproveitar para passar logo essa tarde. De manhã à tarde eles já estavam longe. Porque era nesse dia. Dois dias depois, quem passasse no mesmo sítio já encontrava para queimar outra vez.
No lado sul da ponte da Canjala pintaram: ‘É muito proibido passar a ponte com a cara muito estranha.’”

 

Trecho de Baía dos “Tigres” , de Pedro Rosa Mendes.

Imagem

 

Os cegos: vêem algo?
— Uma cara de mulher, lisa à perspectiva das mãos.
— O cheiro molhado da chuva que se aprendeu de ouvido.
— Lembro muito um carro azul, não era meu, uma bicicleta que era, uma casa.
— O caminho para casa.
— Tinha um rádio de plástico e um pente vermelho.
— O mato calmo e de repente o fogo a saltar-me dos pés. O incêndio da
bomba correndo em mim, sim.
— Estou mesmo numa vida escura. Desculpe, mas nada.
— A paz é a nossa recompensa.
O perdão, o prêmio do líder que os mandou combater.
— Deixei de o ver quando perdi os olhos. Agora acompanho-lhe a voz.
Não consigo fazer uma frase da cara dele, mas uma palavra sim: forte,
alto. Não é?

Pedro Rosa Mendes em “Baía dos Tigres”

Imagem

Autumn Maple,” by Sakai Oho

 

If I die of love,

No other name than yours

Will be raised in blame,

But no doubt you’ll just say, 

That’s life; nothing lasts forever.

 

Hon’ami Koetsu (1558-1637)

Imagem

Foto de Julio Cesar Goes. Barcelona, Espanha.

 

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Tomas Tranströmer

Imagem

Foto de Júlio Cesar Góes. Barcelona, Espanha.

 

Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 
conheço tão bem o teu corpo 
sonhei tanto a tua figura 
que é de olhos fechados que eu ando 
a limitar a tua altura 
e bebo a água e sorvo o ar 
que te atravessou a cintura 
tanto tão perto tão real 
que o meu corpo se transfigura 
e toca o seu próprio elemento 
num corpo que já não é seu 
num rio que desapareceu 
onde um braço teu me procura 

Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 

Mário Cesariny